quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Dom Casmurro - Parte 3 - Final

Pois é, graças a ao acometimento de uma convalescência devéras aguda (no melhor estilo Machado de Assis) concluí o tomo. Traduzindo... graças a uma crise intestinal das brabas, ontem não fui trabalhar e terminei de ler o livro.

Gostei. Realmente o livro é muito bom, só tem um problema, passa tempo demais contando a história do Casmurro até a saída do seminário e a parte em que narra o casamento e a separação de Capitu fica muito corrida. Pra se ter uma idéia, na versão que li (editada pela L&PM Pocket) o livro tem ao todo 228 páginas. A saída do seminário se dá na página 165, Bentinho então com 17 anos. O resto do livro, que é parte mais esperada e mais falada ficou em 63 páginas. Mas uma coisa seja dita, essa compactação, do que eu vou chamar de segunda fase do livro, dá um ritmo alucinante ao final. Realmente fica difícil parar de ler.

Como não quero estragar o pouco suspense de um livro que hoje praticamente já é conhecido por todos (inclusive por quem ainda não o leu) não vou contar aqui nenhum detalhe. Se você ainda não leu, leia. Se vai fazer prova sobre o livro, leia também seu vagabundo!!! Vou me ater ao já discutido e ouvido por todos...

Alguns pontos me levam a crer que Capitu traiu Bentinho. Seguem os pontos:
  • Capitu sempre se mostrou uma menina questionadora, desde a infância sempre teve resposta pra tudo, até mesmo para os mais velhos. O que em 1857 devia ser muito raro. Daí suponho que ela não seria o tipo de mulher que levaria desaforo pra casa;
  • Quando Bentinho se convençe de que Ezequiel (o menino que supunha ser seu filho) é filho de Escobar, e acaba por dizer isso ao menino ainda pequeno, Capitu não nega claramente. Apenas se diz ultrajada e concorda que a separação é fato consumado;
  • Quando o Ezequiel volta ao Brasil depois que a mãe morre na Europa, Bentinho diz que é exatamente igual a Escobar nos tempos de seminário. Características físicas, voz, tudo remete a Escobar;
Porém, não digo que me convenci da traição porque existem alguns pontos que também levam para o outro lado:
  • A alusão à Otelo é clara no livro (mais clara até do que supunha). Quando "descobre" que foi traído, Bentinho vai ao teatro ver.... Otelo! E neste, não existe dúvida, Desdemona não traiu Otelo. Otelo foi na verdade levado a crer nisto por Iago. Em Dom Casmurro, a figura de Iago é incorporada por José Dias, apesar de bem menos do que eu pensava. Existe uma referência clara no capitulo chamado "Uma Ponta de Iago" em que José Dias fala mau de Capitu para Bentinho. Mas esse é um dos poucos momentos em que José Dias demonstra ser uma pessoa traiçoeira. Acho até que o termo idéial é fofoqueiro, traiçoeiro seria muito forte;
  • Considerando a época do livro, a falta de rebeldia de Capitu pode ser interpretada como sinal de subserviência ao marido, normal. Se fosse traidora talvez tivesse se comportado de outro modo. Cabe ressaltar que o livro é contado em primeira pessoa, portanto, o texto é a impressão de Bentinho;
  • Em vários momentos do livro Bentinho fala de sua memória fraca e o livro é escrito na sua velhiçe. Daí, pode-se acreditar que o livro é composto das fracas lembranças, retalhos do que se passou;
  • Um último ponto e talvez o mais importante é que, justamente por ser narrado em primeira pessoa, Bentinho tem todas as ferramentas para levar o leitor a crer na sua versão dos fatos e assim justificar seus atos. Esquecendo de aspectos que inocentariam Capitu e lembrando mais daquilo que o feriu e atormentou;
Daí, eu tiro minha conclusão: Machado de Assis deve estar rindo de todos nós, tentando resolver uma charada que talvez não tenha resposta.

Acho que até que falei de alguns pontos importantes facilitando a vida daqueles que não querem ler o livro, mas tudo bem, não pretendo consertar o mundo. Principalmente consertar os imundos...

Abraços e até a próxima.

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